Ritual – Um Caminho para a Transformação

Quando você oferece um presente a alguém muito querido, o que está querendo fazer, na realidade? Expressar seu amor por aquela pessoa? Mostrar que deseja vê-la feliz? E por que não dizer isso à ela, ao invés de presenteá-la? Talvez, você esteja pensando “eu presenteio porque quero que o outro sinta o quanto eu gosto dele. As palavras não são suficientes para expressar e quantificar esse sentimento”. Se sua resposta foi parecida com essa, parabéns, você acaba de entrar nos domínios dos rituais.
O ritual é uma ação simbólica que procura expressar aquilo que não é possível explicar só com palavras. Quando experimentamos um sentimento forte, procuramos materializá-lo, trazê-lo para o mundo físico para podermos lidar com ele de maneira palpável. Ao dar um presente, o que menos importa é o valor desse objeto, mas seu significado. Aliás, conta muito mais o ato de presentear do que o objeto em si. Quando eu era criança, sempre que voltava da escola, trazia uma florzinha, meio morta de tanto que eu a apertava, e dava para minha mãe. Anos mais tarde, fui entender que o que me movia a devastar tantos canteiros nas calçadas era o deleite que minha mãe sentia com aquela atitude minha. E que eu fazia como uma forma de agradecer por tanto carinho e por todos os cuidados que ela tinha comigo. Da mesma forma, quando participamos de um ritual – de qualquer cultura que seja – estamos procurando expressar nossa gratidão pelo universo ou pedindo a atenção da inteligência cósmica para aquilo que necessitamos naquele momento.
Mas o ritual não serve apenas como um canal de expressão. Joseph Campbell, autor e estudioso de mitologia comparada, nos ensina que a função primária do ritual é oferecer símbolos que levam o espírito humano a progredir. Existem momentos em nossas vidas em que temos que transformar alguma parte de nossos padrões mentais para lidar com uma nova situação ou assumir um novo papel. Nas sociedades primitivas existiam rituais de passagem, criados para dizer ao menino que ele passaria a ser considerado como um homem pela tribo e teria novos deveres e novos direitos. Esses rituais eram criados para deixar uma forte impressão (samskára) na mente do jovem guerreiro e ajudá-lo a abandonar a atitude de criança, que é cuidada pela comunidade, e tornar-se um adulto, que deve cuidar da comunidade. Em geral, nesses rituais, eles deveriam provar sua coragem e habilidade, o que lhes dava autoestima e autoconfiança para encarar a vida adulta. No mundo atual, tão carente de rituais, vemos homens crescidos que acham que a função da esposa é cuidar dele. Ou mulheres feitas que esperam ser mimadas pelos maridos como eram por seus pais. São pessoas que não entenderam que estão vivendo um outro momento e que seu papel é cuidarem um do outro como casal e de seus filhos. Assim, os rituais podem trazer uma energia extra que nos auxilie a atravessar os portais de nossos comportamentos inconscientes. Que nos ajudem a deixar para trás nossas fantasias, medos e complexos que nos impedem de crescer e viver uma vida deliberada, com escolhas conscientes, rumo à nossa evolução como seres humanos.
Embora o Yoga, em minha interpretação, esteja longe de ser uma religião, sua prática está repleta de rituais – ações simbólicas que nos ajudam a evoluir. Quando deitamos para relaxar ou praticamos a meditação, estamos treinando para ultrapassar nossa mente limitada e mesquinha e assumir a responsabilidade por nosso crescimento espiritual. Procuramos sair do domínio do ego e mergulhar no vasto oceano da consciência cósmica. Deixamos o “eu pessoal” para operar no “Eu expandido” que engloba todas as pessoas e seres. É claro que para dar esse salto quântico temos que mudar a maneira como vemos e como nos relacionamos com o mundo. Assim, a meditação nos dá o conhecimento dos mecanismos internos e nos enche de energia para transformá-los.
Hoje, sentindo a falta da força que o ritual nos traz, muitos instrutores e espaços de Yoga começaram a introduzi-los aos seus alunos. É comum vermos celebrações dedicadas a Ganesha (destruidor dos obstáculos), Lakshmi (a deusa da prosperidade) ou Shiva (senhor da transformação). Quando fazemos essas cerimônias no Aruna Yoga, sempre enfatizo que essas deidades são apenas símbolos e que ao fazer um mantra para Ganesha, estamos sintonizando com a força do destruidor de obstáculos que existe dentro de cada um de nós, pois todos nós temos que vencer as dificuldades da vida, todos os dias. Quando celebramos Lakshmi, estamos nos abrindo para a prosperidade que existe no universo, mas que nem sempre nos permitimos desfrutar. Ao fazermos oferendas a Shiva, estamos despertando a energia para transformar aquilo que é velho e inútil em nossas vidas. A maioria das pessoas que participam desses rituais sai com novos insights, sentindo-se inspiradas e com força para dar um novo rumo para suas vidas. Os rituais hindus são repletos de flores coloridas, alimentos saborosos, o perfume dos incensos, os sons dos mantras e sinos para que todos os sentidos sejam mobilizados e focados no objetivo do ritual e possamos ter uma experiência mais profunda.
De todos os rituais que conheço, o Havan – ritual do fogo – é o que mais utilizo. Fazemos o Havan no Aruna Yoga todo primeiro sábado de cada mês. Recebi esse ritual da minha Guru, Swami Satyasangananda e desde 2010 nunca deixei de fazê-lo. Existem evidências de que esse ritual já era feito na Índia há mais de 10.000 anos. Ao dominar o elemento fogo o homem deu um grande passo evolutivo. Pôde trazer luz e calor para sua moradia, cozinhar a comida e espantar os animais selvagens. Por isso o fogo tem um registro muito forte no inconsciente da humanidade e, em muitas culturas, simboliza o divino. No Havan, oferecemos ervas aromáticas e Ghee (manteiga clarificada) para alimentar o fogo. Na tradição vêdica, o fogo representa a boca dos deuses. É através dele que alimentamos o divino, que existe fora e dentro de nós mesmos. Junto com as ervas, entregamos ao fogo tudo aquilo que queremos transformar em nós mesmos: nossos pensamentos destrutivos, preocupações, raiva, apego etc. O fogo purifica e transforma esses sentimentos e os devolve sutilizados, na forma de energia. Com o Havan, nos purificamos, agradecemos pelo dom da vida e por tudo o que temos, pedimos aquilo que estivermos precisando e nos abrimos para que a energia cósmica escoe através de nós para o mundo à nossa volta. Com esse ritual tão simples e tão antigo, passamos a entender que somos o canal através do qual a graça e as bênçãos chegam à Terra e que essa é a nossa vocação de seres humanos-divinos.

Anderson Allegro Anandamaya

Copyright © 2014 - Aruna Yoga - Rua Eça de Queiroz, 711 - Paraíso - São Paulo - Tel: (11) 5579 5975