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De Volta da Índia

Anderson Allegro

Viajar para a Índia é um marco na vida da gente, mesmo para quem já foi várias vezes. Quando começo a mostrar as fotos e falar dos lugares, sempre sinto uma pequena frustração, pois não consigo transmitir o que é essencial nessa viagem. O que conta não é a mala cheia de presentes, roupas e artigos que custam tão barato lá nem as centenas de fotos que usamos para registrar os lugares onde passamos. O que conta de verdade são as coisas que vivenciamos nesse país, são os limites interiores com os quais somos obrigados a nos confrontar e a invariável comparação que fazemos entre o modo de vida deles e o nosso.

Sempre digo às pessoas que viajam comigo para tentarem olhar a cultura indiana com olhos isentos dos conceitos da nossa própria cultura. Essa é a forma ideal de se abordar e compreender outros povos. Claro que não é fácil, mas a gente tenta. Todos reconhecem que o padrão de vida na Índia e Nepal está muito aquém do nosso. Quase ninguém tem geladeira, video-cassete ou chuveiro elétrico em casa e poucos deles almejam esses itens essenciais para nós. Aliás, eles não desejam muito além da comida de todo dia e um espaço qualquer onde se possa dormir. É aí que começo a questionar a nossa vida estressada e cheia de ansiedade, em que queremos ter carro do ano, uma casa maior, apartamento na praia, casa no campo, TV a cabo, computador, Internet etc. Acho justo ter tudo isso. Porém, será que vale a pena gastar todo nosso tempo e nossa vida lutando para conseguir essas coisas e, depois, para mantê-las?

O trânsito é uma loucura. Andar pela Paulista às seis da tarde é uma maravilha, comparado com a quantidade de veículos e o movimento caótico dos mesmos pelas ruas das grandes cidades indianas. No entanto, raramente, se vê um motorista reclamando, brigando ou xingando. Eles continuam dirigindo, calmamente, em meio àquela balbúrdia.

Nas lojas, todo mundo quer vender e temos que barganhar muito para comprarmos por um preço justo. Sempre achei que os vendedores indianos são os mais ávidos do mundo. Este ano, passei por uma experiência que me fez repensar esse conceito. Estava barganhando com um jovem vendedor até que ele chegou num preço de apenas vinte rúpias (o dinheiro indiano) a mais do que eu queria pagar. Aceitei, contei as notas que tinha no bolso e dei a ele. Meio de brincadeira, mostrei as duas notas amassadas que havia sobrado e disse-lhe que elas não eram o suficiente para pagar o jantar. O rosto dele ficou pálido e, imediatamente, ele me devolveu as vinte rúpias. Eu fiquei sem-graça e disse que era brincadeira, mas ele insistiu para que eu ficasse com o dinheiro. Só depois de garantir que eu tinha mais dinheiro no hotel e que não ficaria sem jantar, é que ele aceitou de volta as vinte rúpias. Dinheiro é só dinheiro, mesmo para um vendedor. O meu jantar era mais importante para ele do que o seu próprio lucro.

O simples ato de caminhar pelas ruas pode ser uma experiência única. Ao olhar pessoas tão diferentes de mim, fico imaginando como elas vivem, o que pensam, como são na intimidade de suas casas e chego à conclusão de que, apesar das diferenças da aparência, no fundo somos todos muito semelhantes e estamos sempre aprendendo uns com os outros. Essa percepção me curou do complexo de inferioridade que, como bom brasileiro, sempre senti diante dos europeus ou americanos. Gente é sempre gente, não importa a roupa que veste ou a língua que fale.

Como explicar o que se sente ao meditar, silenciosamente, às margens do sagrado rio Ganges? Ou ao descansar debaixo de uma árvore no parque onde Buddha fez seu primeiro sermão? Voar de balão rodeado pelos picos nevados dos Himalaias é uma sensação indescritível. A gente se sente dono do mundo, com total liberdade para ir onde quiser e ser apenas aquilo que somos. É como se todas as mesquinharias da nossa vida cotidiana se dissolvessem diante da grandiosidade daquelas montanhas. Nada mais resta além do silêncio e da certeza de ser uma pessoa abençoada pelos deuses e privilegiada por poder experimentar isso tudo. E, quietinho dentro do balão, enquanto uma lágrima rola, disfarçadamente, pelo rosto, a gente agradece ao Grande Mistério por tanta beleza e por essa maravilhosa dádiva que é a vida.

 

 

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